ARENA: fundando em 1953, em São Paulo, “torna-se o mais ativo disseminador da dramaturgia nacional que domina os palcos nos anos 1960, aglutinando expressivo contingente de artistas comprometidos com o teatro político e social.” Ali surgiu o primeiro “fazer teatro" em formato de arena no Brasil, com destaque para os nomes: Décio de Almeida Prado, Geraldo Mateus e José Renato.
A peça de estréia foi Esta Noite é Nossa (Stafford Dickens), com os atores: José Renato, Geraldo Mateus, Henrique Becker, Sergio Britto, Renata Blaunstein e Monah Delacy. Então até 1956 o Arena monta peças mais clássicas e depois tenta encontrar um repertório e uma estética própria – quando nesse ano ele se funde com o TPE e contrata Boal para aulas sobre as idéias de Stanislavki. Novos nomes: Guarnieri, Vianinha, Milton Gonçalves, Vera Gertel, Flavio Migliaccio, Floramy Pinheiro, Riva Nimitz. Em 1958, beirando a dissolução por crise financeira e ideológica, Guarnieri escreve Eles Não Usam Black-tie, que foi dirigido pelo José Renato, alcança grande sucesso. O retorno é surpreendente, fazendo com que esse texto torne-se referência de texto nacional – em razão das abordagens atuais, no momento em que o Brasil vivia um cenário de greves e opressão. Na primeira montagem havia a participação de Guarnieri (Tião), Lilia Abramo (Romana), Miriam Mehler (Maria), Flavio Magliaccio (Chiquinho), Eugenio Kusnet (Otávio), Francisco de Assis (Jesuíno), Henrique Cesar (João), Celeste Lima (Teresinha), Riva Nimtz (Dalva), Milton Gonçalves (Braulio).
· Daí em diante a obra de Guarnieri se volta a essa temática da “vida operária”:
*Gimba [em cena o morro carioca e a dura sobrevivência das populações marginalizadas], de 1959, é produzido pelo Teatro Maria Della Costa (destaque é Flávio Rangel). *A Semente [enfoca, em modo desabrido, a organização do Partido Comunista e a atuação de uma de suas células num momento de greve operária], de 1961, pelo TBC.
"Esses textos ostentam, pela temática e proposições estéticas, vínculos com o realismo socialista; possuindo o mérito de deslocar o olhar cênico para as camadas populares, seus problemas e contradições próprias, sem a óptica paternalista tradicional."
*O Filho do Cão [pretende fundir alguns mitos conhecidos na região com a exposição realista da miséria da população]. Montado no Teatro de Arena (direção de Paulo José).
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| encenação de Arena conta Tiradentes, 1967 |
· Em 1965, um ano depois do golpe militar, uma nova realidade se configura e o grupo se vê obrigado a reorientar e repensar seu repertório. Para driblar a censura é preciso algo novo, os dramaturgos são obrigados a aceitar cortes ou a apelar para expressões metafóricas em seus textos, objetivando liberar as encenações – em razão do AI-5. Assuntos históricos e alegóricos se mostram como uma saída. Então, Guarnieri, Augusto Boal e Edu Lobo estruturam um espetáculo em torno da saga de Ganga Zumba, o herói negro dos Palmares, - modelo de um seminário histórico, que possibilita a inclusão de um narrador contemporâneo que interliga e comenta os episódios representados, estabelecendo outro patamar de comunicação com a platéia. = ARENA CONTA ZUMBI. Em 1965 vai a cartaz ARENA CONTA TIRADENTES. ===== caracteriza-se como TEATRO DE RESISTÊNCIA:
um movimento teatral e um conjunto de dramaturgos que se colocam contra o regime militar de 1964. São textos que enfocam a repressão à luta armada, o papel da censura, o arrocho salarial, o milagre econômico e a ascensão dos executivos, a supressão da liberdade, muitas vezes apelando para episódios históricos ou situações simbólicas e alegóricas. Desenvolve-se entre 1964 e 1984, embora a grande concentração esteja entre 1969 (decretação do AI-5 e arrocho da Censura) e 1980 (início da distensão).
A primeira reação teatral ao golpe militar de 1964 é Opinião, um show de protesto que reúne ex-integrantes do CPC. Duas realizações coroam o movimento de resistência: a encenação em 1979 de Rasga Coração, texto de Oduvaldo Vianna Filho datado de 1972, que tem de enfrentar dura e longa batalha com a Censura, sendo liberado apenas após sua morte. E a visita ao Brasil de Augusto Boal em 1980, vivendo no exílio, com seu Teatro do Oprimido. O texto de Oduvaldo Vianna Filho trata das lutas do Partido Comunista, e o Oprimido, idealizado por Augusto Boal, disponibiliza técnicas teatrais às vítimas de situações opressivas.
· Em Arena Conta Zumbi e Arena Conta Tiradentes, usa-se o sistema denominado “Sistema Coringa”, onde todos os atores fazem todos os papéis, alternando-os entre si, prescindindo de um aprofundamento psicológico nas interpretações. A ligação entre os fatos, a narração dos episódios obscuros ficam por conta de um Coringa, elo entre a ficção e a platéia.
· O uso do Sistema Coringa, a dispersão de forças de Augusto Boal dividido entre muitos compromissos, e o clima político concorrem para um resultado frio, que não prende a atenção do público. Guarnieri sai do Arena em 1959 para poder realizar um trabalho com Maria Della Costa, Gimba, Presidente dos Valentes. Era o primeiro trabalho de Guarnieri em palco italiano e a direção ficou a cargo de Flávio Rangel. [retrato da realidade dos morros cariocas, em forma de musical, inspirando-se em parte na sua própria experiência de vida.] A encenação passou meses excursionando pela Europa, sendo apresentada no Festival das Nações, na França.
· Em 1962 Guarnieri retorna ao Arena como autor, ator e sócio.
· Boal é detido em 1971, em meio a novos ensaios de Arena Conta Bolivar, e em seguida parte para o exílio. O Arena passa às mãos do administrador Luiz Carlos Arutin e do Núcleo, grupo remanescente do espetáculo Teatro Jornal. Doce América, Latino América, criação coletiva, com direção de Antônio Pedro, é apresentada até o fechamento do teatro, em 1972.
· A sala foi comprada pelo Serviço Nacional de Teatro, SNT, em 1977, impedindo assim a dissipação da memória de uma das equipes de maior relevância na cena brasileira. Com o nome de Teatro Experimental Eugênio Kusnet, ela abriga, desde então, elencos de pesquisa da linguagem teatral.
· Guarnieri, após longo afastamento dos palcos, exercendo outras atividades, inclusive como Secretário de Cultura da Prefeitura, o autor volta em 1988 com Pegando Fogo Lá Fora, em 1995 A Canastra de Macário, em 1998 Anjo na Contramão com o filho Claudio e em 2001 a ultima peça, que foi chamada de A Luta Secreta de Maria da Encarnação.
· Também ator de cinema e televisão, acumula nesses veículos grandes interpretações.